Um dia que parecia como outro qualquer, não, ninguém transformou-se em barata, ou a morte, com suas intermitências, resolvera tirar férias ou cochilo, ou então de um semáforo todas as pessoas tornaram-se cegas. Não, neste dia, que, conforme ditas há um punhado de palavras logo ali, qualquer, porquanto não importa se amanhecera chovendo, ou calor, ou frio (o que é raro para este aqui que escreve, do lado debaixo do Equador, em local para muitos desconhecido), neste dia aconteceu talvez o que fosse o sonho de toda pessoa, embora as mulheres e os homossexuais mais o desejassem. Todos, absolutamente todos, acordaram explendorosamente belos. Não recordemos nada, pois este conto praticamente acaba de nascer, porém na noite anterior a este dia que acabamos de falar, que, repito, parecia comum a todos, em algum lugar, ou em muitos, alguém, homem, ou mulher, deitar-se-ia prometendo no dia de amanhã, ou na próxima segunda, ou em qualquer ocasião que possa siginficar um início, não imediato, mas com algo de solene, dir-se-ia: começarei um “regime”, entrarei para a academia e cuidem-se todos da minha beleza sublime. Ao mesmo tempo estaria alguém extremamente ansioso, em jejum, afinal no dia, neste (não repetiremos as razões) dia aparentemente comum, preparar-se-ia para uma cirurgia plástica, imaginando-se qual seria o resultado, ou melhor, o resultado desejado, evidentemente, pois o indesejado não pode sequer passar pela mente, ao cabo de onze horas de jejum, que podem colocar toda a vontade abaixo. Pois bem. Amanhecera, e ambos, e quantos mais outros que se achavam abaixo da linha, não da pobreza, eis que esta não é de tão fácil solução, especialmente cá para os lados do sul do globo, mas da beleza, onde independentemente da classe social, alguns têm a sorte de serem belos, naturalmente, outros, no entando podem depender de fato da sorte, não da beleza, porém dos abastados recursos, próprios, ou de crédito, de outrem, especialmente em época onde pipocam os créditos ao público, e as prestações a perderem-de-vista, cabem folgadamente nos bolsos e quem há de se preocupar com o amanhã, eis que o amanhã é só velhice e morte, ou esta sem a anterior. Sem mais delongas, amanheceu e todos, absolutamente todos, estavam belos, lindos maravilhosos. Como num passe de mágica, somem os gordos, os excessivamente magros (os magros não porque a beleza neles ainda reside), porém todos os corpos agora estavam belos, modelos saídos de um forno, de uma fábrica e todos, todos os desejos, e os indesejos de beleza haviam sido atendidos, dos mais recônitos aos mais evidentes. Não demorou a surpresa estampada no rosto e nos gritos de quem acordava. A cabeça era a minha, porém, como num exercício infantil, alguém havia passado a tesoura em meu corpo e colado um manequim abaixo do pescoço, ou igualmente abaixo do rosto. Ah, este por seu turno não poderia ter ficado intocado. Aparentava-se idades, porém as linhas, e rugas de expressão haviam sumido, e todas as mulheres, e todos os homens, como num passe de mágica, haviam retornado para a casa dos trinta-trinta e cinco anos, em alguns casos do quarenta, eis que milagres, embora tenham esse nome, não têm o condão de a tudo consertar e prever. Quarenta anos estava bom para um caso onde não havia remédio em toda a medicina, como diria a sapiência do cancioneiro popular.
O espanto foi geral. A alegria percorrera todos os lugares, aparentemente. Nas cidades, era só alegrias e mais loas de felicidades a quem interessar possa. Se era impossível se reconhecer, imagina ao outro. Nossa, parece que você está mais novo. Diria o mesmo a respeito de você, remoçou de tal maneira que quase não te reconheci. Pais e filhos mais pareciam irmãos e tios não tão mais velhos assim. A beleza havia sido devolvida aos rostos dos mais velhos e, quem teria vergonha de dizer que havia passado dos sessenta e cinco. A idade das mulheres deixava de ser uma esfíngico enigma e era amiúde difundido. Você sabe aquela minha vizinha ou tia ou amiga ou mesmo conhecida, várias dezenas de primaveras completas e parece que vários anos foram apagados do seu prontuário visual.
Feriado auto-decretado. Era direito da humanidade, naquele dia, talvez o mais feliz desde que a existência assim se proclama, desconhecendo-se a felicidade do casal original, Adão e Eva, no paraíso, antes da maldita serpente haver oferecido aquele fruto, não se sabe se maçã, pera, romã, manga, uva ou o que fosse, Moisés não deixa claro qual é, mas a sabedoria popular convencionou dizer tratar-se da maçã. Se Deus de fato pertence a esta nação verde-e-amarela, Isabel e Castela, deveria o fruto proibido ser uma jaca, jabuticaba, mangaba, cupu-açu (antes de os japoneses terem-no patenteado) ou açaí. Enfim, qual seja a fruta, cuja semente ou gérme escondia-se o pecado, naquele tempo aterior, a felicidade conhecia o casal original livre de toda e qualquer preocupação. Agora, a humanidade estava livre para regozijar-se com o que fosse, aproveitando a beleza devolvida ou volvida a um pequeno rosto acostumado à baixa autoestima.