Saga do Tradutor IV

À frente do livro aberto, após deparar-se com a palavra misteriosa, Alenderman não havia descansado por um minuto sequer. Aquela descoberta o havia excitado de tal maneira que esquecera das necessidades básicas de um indivíduo, tais quais alimentação e descanso. Nosso tradutor estava há umas doze horas debruçado sobre aquele árduo e incomum trabalho de localizar o significado de uma palavra desconhecida, absolutamente desconhecida.

Porém, o peso do cansaço foi-lhe recaindo sobre seu corpo. Mal conseguia manter aberta as pálpebras e enxergar em sua frente o computador. Havia pesquisado onde fosse possível, inclusive com amigos via msn messenger, no entanto, nada de resposta quanto ao misterioso vocábulo.

Adormece. Mesmo naquela desconfortável posição, o sono vem com tal força e profundidade, que é capaz de atravessar todas as fases até que a consciência encontra o mecanismo de fazer-se descansar e lança Alenderman no mundo dos sonhos.

Acordo. Enorme escuridão ao meu redor. Pouca diferença faz manter os olhos abertos ou fechados. Mas que sala estranha. Há pouco tempo jurava, estava eu debruçado na tradução do importante livro e procurando aquela palavra absolutamente desconhecida. O que houve? onde está a minha sala, mesa e computador. Estendo as mãos e caminho em linha reta, tomando cuidado para não esbarrar em algum eventual objeto. A sala, no entanto, parece estar vazia. Após alguns minutos dou-me com uma parede. Absolutamente lisa. Sigo pela esquerda, e verifico que a parede faz uma curva, suave, e, salvo engano dos meus sentidos, se trata de uma curva de cento e oitenta graus, côncava, a continuar, após, em linha reta. Não há trincos ou portas, mas apenas parede lisa, sem menor sinal da luz. Continuo tateando a parede e vejo agora a presença de cantos, em formato de ângulo reto, o primeiro convexo, o segundo e o terceiro são côncavos e a parede segue em linha reta novamente. até deparar-me com uma outra parede em curva, desta vez, convexa, em lado oposto à primeira parede em curva. Ora. Salvo engano, esta sala tem o formato de uma letra n, pensamento que pude confirmar continuando a apalpar as paredes. De fato, a sala possui o formato de uma letra n e não há portas ou trincos ou qualquer outra coisa. Estou aqui preso.

Ah, escrever em primeira pessoa é muito chato, pelo menos no caso de Alenderman. Vamos retomar a terceira aqui que é muito mais delicioso observar o drama alheio do que dele compartilhar. Que desespero tomou conta do nosso tradutor, assim que tal se deu conta. Deitou-se ao chão e, não querendo ser este autor muito clichê, mas foi inevitável que o nosso Alenderman desse um grito. Afinal, as pessoas gritam quando estão assustadas e eu não posso querer ser tão assim original neste blog neonato. Em sonhos, ou pesadelos, e aqui estamos, ao que tudo indica, até o momento, num pesadelo, é comum as pessoas soltarem um grito de pavor. E desse modo foi o que Alenderman fez, ao se deitar no chão e com os olhos fechados, embora inútil esse gesto, ante a total escuridão do cômodo, e com as mãos no rosto, para se proteger sabe-se Deus do quê, mas assim o fez.

Sentia, após esse grito, que algo havia mudado no ambiente. Sim, algo havia sim se transformado e o sentia assim que retirara as mãos do rosto. Pudera perceber que havia agora luz, ainda que estivesse com as pálpebras fechadas. Seria um interruptor sensível ao som? Não saberia dizer, só após abrir os olhos para se saber mesmo.

O nosso tradutor encontrou-se numa sala enorme, cujo chão parecia um enorme texto impresso. Que coisa mais interessante. Da onde se encontrava, podia ler e era justamente o primeiro parágrafo do livro que estava a traduzir. Capítulo um, lia, claro, já traduzindo o que seria do idioma original. O texto estava impresso no chão cujo branco, a imitar a página era um tapete felpudo, bem macio (ah, o nosso herói estava descalço, esqueci de mencionar o detalhe). Onde havia letras, o negro delas era áspero como uma lixa, a quase machucar os pés de Alenderman. Olhara para trás e parecia estar no princípio da sala, igualmente sem portas, ampla, porém muito mais em comprimento que em largura. Imitava um enorme papiro e o texto a se perder de vista em frente. E o jeito era esse. Caminhar para encontrar alguma saída.

E pôs-se a andar o nosso tradutor, acompanhando o texto que quase que conhecia de cor e caminhava, embora o lesse com dificuldade porque o texto estava de cabeça-para-baixo, ou ponta-cabeça, como prefira o leitor, esteja ele em qualquer parte deste Brasil. E seguia o texto, e, engraçado, uma idéia tocou-lhe o âmago: será que aqui eu encontrarei a palavra misteriosa? Provavelmente sim, porém estava muito longe, há vários capítulos de distância daquele trecho. Era preciso apertar o passo.

E o fez. Começou a empreender uma corrida, frenética, pela sala, percorrendo em leitura dinâmica o texto já conhecido. Até onde eu saiba, Alenderman nunca foi dado a correr. Não possuía vigor nem fôlego de atleta, e aquela corrida certamente o cansaria em algum ponto. Mas pouco se importou com isso e continuou a correr, e assim o fez durante alguns minutos, o que transformou o passeio numa ofegante viagem. Conforme chegava mais perto, sentia o coração bater mais forte, e mais assim que percebeu algo. Ou melhor, alguém. Isso, havia alguém a frente, e ao que parece, bem no lugar onde deveria estar a palavra desconhecida.

Conforme aproximava-se, via delinear-se diante dos seus olhos uma mulher muito bonita, bem adornada com jóias e um tecido brilhante, vestida tal qual uma princesa do oriente antigo, numa ocasião festiva. Novamente, pedindo licença a você, leitor, preciso aqui usar mais um clichê: ao se deparar com a mulher, Alenderman viu que ela sorria e olhava para ele fixamente e disse: estava à sua espera, meu querido.

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