Estarrecido, como sabias o meu nome? Eu estou no seu sonho, Alenderman, aliás, não só nele, como também não saio da sua mente já faz um tempinho, não é? Quem é você? Sou o mistério que você não consegue decifrar neste livro que você pensava conhecer, meu querido. Mistério? Sim, mistério. Você acreditava que seria apenas uma tarefa como outra qualquer de, sem mais nem menos transportar idéias para o português do Brasil? Enganou-se, eis você aqui parado, extasiado diante de algo que não consegue, e duvido muito consiga dizer do que se trata. Melhor desistir, Alenderman, você não é capaz do que se propõe a fazer, é um trabalho muito maior do que você acredita.
Não conseguia sequer esboçar uma reação ao que via e pior, ao que acabara de ouvir. Havia se tornado estátua de sal diante daquele mistério convertido em pessoa (onírica), mas convertida e que diante dos seus olhos não so se apresentava, como também o desafiava a dizer que não seria ele, Alenderman, tradutor graduado e pós-graduado a simplesmente descobrir o significado de um simples verbete.
Chega de ficar em êxtase, paralisado. Vamos, Alenderman, faça alguma coisa. Senhora palavra, por acaso você acha que eu seria incapaz de traduzi-la? Sim, não só acho como tenho certeza do que estou dizendo. Ah, muito bem, que bacana, bom, primeiramente devo dizer que é a primeira vez em minha vida que converso com uma palavra, tudo bem que você está no meu sonho e enfim, mas oportunidade é oportunidade. Achei que fosse um encontro um pouco mais amistoso, já que lidar com palavras é algo que faz parte do meu dia-dia já há algum tempo. Entretanto jamais imaginei que se daria de tal forma beligerante. Aceito seu desafio e acredito que serei sim capaz de decifrar o seu conteúdo. Parece de fato que você é exclusiva daquela edição e que você não consta em qualquer dicionário ou registro que tenha procurado até agora. Tudo bem, mas a pesquisa é constante e hei ainda de saber do que você trata, minha cara. Se não for possível por via direta, será por vias tortas, pesquisarei até onde me for possível, mas encontrarei as respostas que procuro e você as verá!
Quem agora estava estarrecida era a palavra, ou digamos a Palavra, com maiúscula como convém a uma entidade, ainda que meramente fictícia, fictícia ao quadrado, porque personagem desta história e porque faz parte de um sonho, aliás, ao cubo, porque é personagem da personagem. Não fui eu quem criei, foi a imaginação de Alenderman!!! A nossa Palavra, de lindo aspecto e aparência doce, porém desafiadora, contra-ataca: Olha, você não sabe no que está se metendo. É perigoso desafiar o desconhecido. Ora essa, desde quando uma palavra tem o dom de me ameaçar? Gostaria de ter uma conversa muito mais amistosa com você, mas você além de difícil, me afirma pela impossibilidade de decifrar o seu conteúdo. Enigma da esfinge é em outra história, não aqui, favor colocar-se no seu devido lugar. Ora, agora debocha de mim. É claro, você debocha primeiro de mim, e o que espera a esse respeito, que eu venha de cabeça baixa e aceite essa idéia sua esdrúxula de não traduzir, de parar por aqui e virar as costas e ir embora? Negativo, passarei por você como passei pelas demais palavras e agora, mais que nunca, empenhar-me-ei ao máximo para decifrar seu signficado.
Palavra, que até então ostentava um ar orgulhoso, transmutou-se em ódio. Alenderman, o desafio está lançado então. Você vai arcar com as conseqüências dos seus atos e sentirá o que é deixar um vocábulo irritado. Até onde eu sei, vocábulos não possuem sentimentos. Ora, Alenderman, eu sou o quê então? Sonho meu? Era, pois agora prepare-se para o pesadelo começar.
Sumiu-se. Palavra não estava mais lá, e no seu lugar, havia apenas um buraco, uma ferida marrom naquela sala totalmente branca e cheia de letras escritas no chão. Fez-se curto silêncio no que Alenderman ouviu um apito, bem agudo vindo não sabe-se de onde e espalhar-se por toda a sala. Agora incomodava, e muito, tal qual fosse possível estourar os tímpanos com um guizo dessa natureza. Fechou os olhos e ajoelhou-se ao chão tamanha era a dor que sentia nos ouvidos, e soltou um grito tão forte ou mais do que aquele primeiro na sala totalmente fechada e escura.
Sentiu o chão tremer, e, não obstante o guizo, abriu os olhos e via cada palavra da sala transformada em parede (encontrava-se Alenderman, por coinciência, nas entrelinhas do texto) muito grande, de mais de quatro metros de altura de sorte que parecia encontrar-se num labirinto.
Cessou-se o apito, hora de prosseguir viagem. A questão era como faze-lo ante o surgimento de paredes que dificultam a enxergar a aparentemente impossível saída. Alenderman pôs-se a caminhar nas entre-linhas e nos espaços entre as palavras, agora, muros impenetráveis, a fim de saber como sair daquele misterioso local.
Caminhava com dificuldade nos estreitos corredores, cujas paredes eram por demais ásperas, tais quais muros tão-somente chapiscados, em cor cinza, num aspecto de quase abandono e ausência de qualquer significado. Pelos seus cálculos, após a palavra misteriosa, faltaria pouco para o final do capítulo e era melhor seguir dentre os muros para ver se se achava uma saída ou algo que o valha. Alguns minutos a seguir e deparou-se com o imenso ponto-final, tal qual torre, encravada no canto da sala. O engraçado era que o ponto final possuía uma espécie de escada incrustada em toda a sua extensão.
Alenderman pôs-se a subir tal escada e ao cabo de uns minutos alcançou o topo. Era possível ver toda a sala com suas paredes imensas e emersas, tal qual um mar de paredes. Lá sentou-se para admirar a paisagem enquanto pensava no que fazer para encontrar uma saída.
Janeiro 3, 2008 às 6:11 pm |
confesso que fiquei meio confuso com tantas palavras… mas a burrice é toda minha… a sua inteligência me confundiu…
gostei do seu blog…
vou visita-lo com frequência, pode ter certeza…
abraços…
PS: eu sei o q vc fez no verão passado (em NY era inverno ou verão? rs rs)