Saga do Tradutor VI

By alenderman

Que barulho é esse? Algo como uma torneira, ou uma cachoeira, mas não podia precisar da onde, dada a amplidão do local. Em poucos minutos percebeu a sala, nos vãos, inundar-se e a água atingir até o topo dos muros, a formar ilhas em meio à água turva, parecendo água de rio, de chuva ou de córrego de cidade, cor marrom mesmo. Praticamente impossível enxergar o chão, e junto com a água apareceram alguns peixes pequenos, como que nadando naquele aquário insólito, vários peixes, muitos mesmo que pareciam multiplicar-se à progressão geométrica. Um pescador que aqui lançasse sua rede, teria sem dúvida uma pescaria muito farta, não obstante a cor da água a sugerir poluição do ambiente. Aliás, parece que alguém, ou a imaginação de Alenderman ouviu esse raciocínio do narrador e de fato, havia um barco de pescador vindo em direção do nosso tradutor. Barco? sim, barco, um barco desses bem rústicos, simples ao demais, e na ponta dele, um homem, vestindo bermuda e camiseta regata, barba por fazer e pele castigada pelo sol, lançando sua tarrafa pelas águas, e a recolhendo imensamente repleta de peixes, de todos os tamanhos e formas. Sorria, sorria demais. Passou por Alenderman. Olá parceiro, nunca tive um dia de pescaria tão farto como o de hoje. Quisera todos os dias fossem assim. Haverá um banquete para mim e minha família. Por quê você não pega uma rede como essa também e não experimenta lançar e leva uns peixes para comer com sua família?

Pergunta mais cretina, se fosse possível ler o pensamento de um observador isento. Primeiro que Alenderman é solteiro, não tem mulher, ou filhos, quiçá não os terá jamais, segundo, nosso tradutor lida com palavras, não com pescaria e até onde se saiba, não havia em qualquer outra oportunidade lançado qualquer rede a um mar ou rio para pescar. Nem com vara e molinete o havia feito, quanto mais com uma tarrafa. Mas o fato é que ao seu lado havia uma, dobradinha, esperando somente para ser atirada à água e aprisionar tantos peixes quanto os que ela seria capaz de pegar.

Alenderman imaginou que de fato poderia ser capaz daquilo. Pegou a rede, e seguindo as orientações do pescador, lançou-a do mar, a partir da ilha (ilha do ponto-final, recordam-se?) e observou a rede afundar-se na àgua turva. A seguir a recolheu. Estava pesada, muito pesada, muito mais pesada do que estava quando havia segurado no ar para lançar. Não era só o peso da água, havia algo mais, e parecia que de fato comungaria da mesma fartura que o pescador.

Puxava e puxava a rede com dificuldade, dada a força que teria de empreender para conseguir retira-la da água. Subindo aos poucos, a tarrafa voltava à ilha, e, incrível, no seu final não havia peixes. Não senhor, apesar de todos aqueles que estavam a nadar  e não paravam de circular pela água, não havia pescado um peixe o nosso Alenderman. O que vira era um buquê de rosas vermelhas, desses de vender em floricultura, rosas incrivelmente vermelhas quase cor-de-vinho, gigantescas, como rosas colombianas. Apareceu tal buquê, intacto, e totalmente seco, como que imune à influência das águas.

Sua pescaria foi de muito mais importância que a minha, amigo, parabéns. Dito o pescador sumira, junto com barco, peixes, tarrafa, água turva, parede, sala com caracteres e só havia aquele buquê de rosas em meio à sala totalmente branca.

Pegou-o nas mãos Alenderman. Exalavam um odor de flor de laranjeira, muito agradável, quase que sugerindo fossem deglutidas. Mas eram rosas, e deveriam cheirar como tal.  Pareciam estar desbotando, ou havia uma tinta saindo delas. Não, não era tinta, era sangue. Viscoso e com a cor característica. Do centro de cada rosa jorrava sangue, que escorria por dentre as pétalas, pelo cabo (não sei o nome do cabo, se alguém souber, por favor, coloque no post e me ajude). Até escorrer pelas mãos do nosso tradutor, que, mal percebera, mas já estavam completamente cobertas do sangue das rosas, e já escorrendo pelas mangas da camisa que usava, e por todo o corpo. Quem sangrava agora era Alenderman, coberto de vermelho, como que atacado por algum estranho animal ou com alguma peste que seu sangue subir em erupção até derramar por todo o corpo. Nosso tradutor, coitado, não é dado a gostar de sangue, e ante a visão estarrecedora (mais uma), não teve outra alternativa que não desmaiar, ou melhor, acordar.

Na sala, tudo como dantes, livro, um contato no msn piscando, com mensagem não muito importante, apenas dando boa noite, quando a mensagem fora dada, isso porque já são quase seis horas da manhã e Alenderman dormiu por sobre o trabalho que estava realizando. Olhou mais uma vez o livro, e o texto escrito e todo o resultado de sua pesquisa. Mentalizava a respeito do sonho, ou pesadelo, ou sonho-pesadelo que tivera, apesar da embriaguez que um despertar de uma noite agitada traz. Melhor aproveitar ainda e tirar um cochilo na cama, nas horas que ainda restam para de fato acordar. Era privilegiado em trabalhar em casa e, havia se programado para iniciar os trabalhos às oito da manhã.

Trocou de roupa e deitou-se como se fosse aquele o primeiro sono da noite, que já não mais havia. Encostou a cabeça no travesseiro e dormiu um sono bem profundo, sem sonhos agora. Melhor, sem sonhos. Sou um autor bonzinho e vamos deixar o nosso Alenderman descansar. Mas ele resiste. Como que uma lâmpada, ou um raio, ou um eureka apareceu para o nosso tradutor. Como não pude pensar nisso antes? (olha o clichê novamente, mas lamento, inevitável, é meu primeiro texto literário e não me exijam uma maestria que não possuo, e quiçá possuirei). Mas é isso. O enigma da palavra desconhecida estava decifrado para Alenderman.

Uma resposta para “Saga do Tradutor VI”

  1. Daniel Disse:

    Nossa rapaz, que viagem.
    Adorei isso aqui, bom demais o texto.

    Quero mais viu… risos…
    Quais serão as próximas aventuras do Alenderman ?
    Abraço e até mais.
    ;)

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